Coluna da segunda-feira: Marília Arraes e o Bloco do Eu Sozinho
Eleições

Coluna da segunda-feira: Marília Arraes e o Bloco do Eu Sozinho

Criado pelo jornalista carioca Júlio Silva em 1919, o Bloco do Eu Sozinho é uma dessas metáforas que o tempo não consegue aposentar. Nasceu e por décadas foi formado por um único folião, que fazia questão de preservar sua solidão em meio à multidão. Na política, sobretudo em uma eleição majoritária, há momentos em que um candidato pode descobrir que está vivendo o mesmo enredo: a avenida cheia, o barulho das baterias, os acenos das arquibancadas - mas, quando olha para o lado, percebe que os antigos parceiros de desfile ficaram para trás.

É nessa alegoria que cabe observar a trajetória da ex-deputada federal Marília Arraes (PDT) na disputa pelo Senado em Pernambuco. Assim como é o carnaval, a política é uma festa de alianças. Ninguém chega à avenida principal carregando sozinho uma escola de samba inteira. Há acordos, compromissos, alas, passistas e gente encarregada de segurar o estandarte. Quando pactos são celebrados e, depois, deixam de produzir a marcha combinada, o efeito não é apenas aritmético. Há um componente político e simbólico: quem rompe ou se afasta pode acabar carregando o peso de ter transformado uma possível multidão em um bloco de um só.

O problema é que, na política, diferente do carnaval, não basta colocar a fantasia, tocar a corneta e seguir em frente. Cada gesto pessoal pode produzir consequências coletivas. E diante do posicionamento de Marília em situações decisivas, a exemplo do adotado nas eleições de 2020 e 2022, quando concorreu para a Prefeitura do Recife e o Governo de Pernambuco, respectivamente, sinais de alerta passaram a se acender tanto nas coxias no PSB quanto nas do PT.

A trajetória política de Marília tende a priorizar o pessoal em vez do coletivo. Acontece que o eleitor não enxerga apenas aquele que pede o voto; enxerga também quem está ao seu redor, quem lhe empresta força, quem lhe oferece palanque e, principalmente, quem decide não caminhar junto. A solidão política pode até começar como escolha, mas frequentemente termina como circunstância.

Marília entrou para a corrida ao Senado como franca favorita. Chegou a abrir uma diferença confortável em relação ao segundo lugar, um desempenho que fez analistas destacar que os demais disputariam a segunda vaga em aberto, muitos colocando a vitória da neopedetista como prego batido com ponta virada. Mas os passos do passado voltaram a se repetir no presente e o cenário foi mudando. A liderança de outrora passou a não mais existir e, hoje, o que se vê são quatro nomes empatados tecnicamente, segundo a mais recente pesquisa do DataTrends.

No fim, talvez a lição do velho Júlio Silva seja menos sobre estar sozinho do que sobre parecer sozinho quando todos esperam ver uma multidão. O carnaval ensina que até o folião mais solitário pode chamar atenção, mas a política ensina que atenção não é necessariamente apoio, e independência não é sinônimo de isolamento. Para Marília, a grande questão da avenida será saber se ainda haverá alas suficientes dispostas a acompanhar seu samba ou se, entre acordos desfeitos, distâncias e escolhas individuais, a campanha corre o risco de ouvir apenas o som de sua própria bateria. Porque, quando o desfile começa a parecer um "bloco do eu sozinho", até o silêncio dos antigos companheiros pode virar parte do enredo.

Indignação - A governadora e candidata à reeleição, Raquel Lyra (PSD), registrou boletins de ocorrência nas polícias Federal e Civil após cartazes anônimos com ataques pessoais relacionados à morte de seu marido, Fernando Lucena, serem espalhados pelo Recife. Em resposta, Raquel classificou a ação como cruel e pediu respeito à sua família: “Respeite meus filhos, respeitem quem não está mais aqui, respeitem a minha dor”. A coligação também acionará o Ministério Público Eleitoral.

Solidariedade - Diversas lideranças políticas prestaram solidariedade à governadora Raquel Lyra (PSD) após a circulação de cartazes anônimos com ataques pessoais contra ela em diferentes pontos do Recife. As peças, sem identificação de autoria, fazem referências à morte do marido da governadora, Fernando Lucena, e foram repudiadas publicamente por representantes de diferentes grupos políticos.

Varrida do planeta - Gilson Machado, candidato a deputado federal, postou um vídeo em solidariedade às acusações contra Raquel Lyra e disse : “gente assim tem que ser varrida do planeta”.

Repúdio - Ex-prefeito do Recife e principal adversário político de Raquel Lyra, João Campos também repudiou os panfletos apócrifos com ataques à governadora. “Eu não admito nem que a minha família, nem que nenhuma família seja atacada nessa eleição. Isso está fora da política. Isso é um absurdo”, afirmou. João também informou que acionará a Justiça para investigar a autoria do material e defendeu punição aos responsáveis.

Comitê - Neste domingo (30), a família Coelho inaugurou o Comitê 44, na Tamarineira, no Recife. O espaço funcionará como comitê conjunto das candidaturas de Miguel Coelho e Fernando Filho a deputado federal e de Antônio Coelho a deputado estadual. A solenidade contou com a presença da vice-governadora Priscila Krause, além de deputados, prefeitos, vereadores e outras lideranças políticas de Pernambuco.

Pesquisa - Foi registrada uma nova pesquisa do Instituto DataTrends que irá medir a intenção de votos dos eleitores de Alagoas para as eleições de 2026. O levantamento avaliará o cenário eleitoral no estado. Os resultados e análises sobre os números você poderá acompanhar através do nosso Instagram.